Incidência política no futebol: como o Movimento Coralinas constrói caminhos coletivos
- movcoralinas

- 27 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mar.
Pensar incidência política no futebol é reconhecer que as arquibancadas nunca foram neutras. Elas são espaços de disputa simbólica, cultural e também institucional. É a partir desse entendimento que o Movimento Coralinas tem fortalecido sua atuação em rede, conectando torcidas, mandatos políticos e movimentos sociais para transformar em política pública as pautas que emergem da vivência nas arquibancadas.
Mais do que denunciar violências, o Coralinas tem se colocado no lugar de proposição: construir caminhos possíveis para que mulheres e dissidências possam existir no futebol com dignidade, segurança e pertencimento.
Do debate à política pública: o caso do Protocolo Violeta
Um dos marcos dessa atuação foi a articulação para ampliação do Protocolo Violeta, que agora passa a contemplar estádios de futebol e outros espaços esportivos do Recife. A iniciativa foi construída em diálogo com o Movimento Coralinas, durante evento de comemoração dos 9 anos de atuação, com a presença de torcedoras do Náutico e do Sport. A proposta foi estruturada e apresentada pela vereadora Cida Pedrosa e sancionada em janeiro de 2026 pelo prefeito João Campos.
Reunião com o mandato da vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), para ajuste do Protocolo Violeta, contemplando os estádios de futebol. Foto: Arquivo Movimento Coralinas.
Essa conquista mostra que a incidência política no futebol se materializa quando experiências coletivas são comportalihadas, organizadas para se transformarem em políticas públicas concretas.
Agora, o desafio é ampliar esse debate para o nível estadual, garantindo que essa política alcance mais territórios e realidades.
Articulação com a ALEPE: diálogo com Rosa Amorim (PT)
Reunião com Rosa Amorim (PT), sobre o campo da esquerda, a luta feminista e a importância de políticas públicas construídas de forma coletiva. Foto: Equipe Rosa Amorim.
Em março de 2026, o Movimento Coralinas se reuniu com Rosa Amorim, deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para aproximar o diálogo entre as torcidas e a Assembleia Legislativa de Pernambuco.
A proposta é construir, de forma coletiva, caminhos legislativos que contemplem a diversidade de experiências no esporte, em especial na cultura torcedora da arquibancada de futebol. Isso inclui escutar mulheres que vivem o futebol em diferentes frentes: torcedoras, jornalistas esportivas, atletas, árbitras e outras profissionais.
Está é uma forma de pensar em políticas públicas baseadas na realidade — que partam das dores compartilhadas, mas também das estratégias de resistência já existentes.
Futebol, política e disputa de narrativas
A relação entre futebol e política é histórica. No Brasil, experiências como a Democracia Corinthiana — protagonizada por nomes como Sócrates e Wladimir — já mostravam que o futebol pode ser um espaço potente de organização política e disputa de valores.
Além disso, figuras como Walter Casagrande seguem sendo vozes importantes na defesa da democracia e no enfrentamento ao autoritarismo no campo esportivo.
No entanto, o que vemos hoje é uma ocupação intensa desse espaço por setores conservadores e pela extrema direita. Casos como o de Robinho (condenado por estupro coletivo na Itália), o goleiro Bruno (condenado pelo assassinato de Eliza Samudio) e Daniel Alves (condenado por estupro na Espanha) continuam sendo mobilizados em debates públicos que, muitas vezes, relativizam ou silenciam a violência contra mulheres.
Além disso, jogadores como Neymar já se posicionaram publicamente em apoio a projetos políticos conservadores — como quando realizou uma live em apoio à reeleição de Jair Bolsonaro, mobilizando milhares de pessoas em suas redes sociais.
Esse cenário evidencia que a disputa pelas narrativas no futebol está em curso — e que ela é profundamente marcada por gênero, raça e classe. O Movimento Coralinas está nessa disputa, com a pauta feminista, de esquerda, pelo fim da misoginia, da LGBTfobia, entre outras formas de violência e opressão.
Arquibancada como território político
Lideranças do Movimento Coralinas em reunião com o mandato de Jô Cavalcanti (PSOL), sobre a luta feminista e a importância de ocupar espaços como a arquibancada de futebol com a luta feminista e de esquerda. Foto: Equipe Jô Cavalcanti.
Foi a partir dessa leitura que, em reunião com o mandato da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL), o Movimento Coralinas debateu os caminhos da esquerda em Pernambuco e o papel estratégico das arquibancadas nesse processo.
Em especial, destacou-se a arquibancada do Santa Cruz como um espaço historicamente popular, potente para a construção política, mas ainda pouco disputado por projetos progressistas.
Enquanto isso, discursos misóginos e práticas violentas seguem encontrando eco nesses espaços — muitas vezes sem contraponto organizado.
O Coralinas se posiciona justamente nesse tensionamento: levar para a arquibancada debates sobre feminismo, gênero, raça e classe, ampliando as possibilidades de existir e torcer.
Compromisso com a democracia: a assinatura da carta
Durante o encontro com o mandato de Jô Cavalcanti, o Movimento Coralinas assinou a Carta Compromisso em Defesa da Democracia, um documento que reafirma a importância da memória, da justiça e da não legitimação de práticas antidemocráticas.
A carta surge como resposta aos ataques de 8 de janeiro de 2023 e propõe, entre outros pontos:
a não concessão de homenagens públicas a pessoas envolvidas em atos golpistas
a revogação de honrarias já concedidas
o fortalecimento de uma cultura política comprometida com a democracia
Assim, o Movimento Coralinas reafirma o seu compromisso com uma atuação que não se limita ao campo esportivo, mas se insere em uma luta mais ampla pela defesa da democracia e dos direitos coletivos.
Movimento Coralinas: rede, resistência e transformação
A atuação do Movimento Coralinas evidencia que a incidência política no futebol se constrói em rede, no diálogo entre movimentos sociais, mandatos políticos e a sociedade civil.
Ao levar o debate político para as arquibancadas, o Coralinas constrói outras formas de torcer, existir, de se relacionar com o futebol e de utilizá-lo como ferramenta de transformação social.
A incidência política no futebol começa quando reconhecemos que a arquibancada é um espaço de disputa — e que transformá-la exige organização coletiva, enfrentamento e construção de novas possibilidades de existir no esporte.









Esse coletivo faz tudo!