Feminismo popular em Pernambuco: memória como prática política no presente
- movcoralinas

- 28 de mar.
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O Movimento Coralinas participou do Seminário Memórias do Feminismo Popular em Pernambuco, que aconteceu nos dias 27 e 28 de março, no auditório do SINTEPE. A atividade integra um processo de pesquisa-ação conduzido pelo SOS Corpo em parceria com movimentos históricos do estado.
Maiara Melo, Heloísa Nerys, Janne Freitas e Áurea Alice acompanharam os dois dias de atividade e estiveram implicadas no que ela propôs: pensar memória como ferramenta de disputa e construção política no presente.
O seminário partiu do ponto em que a memória não serve só para lembrar — ela organiza como a gente entende o mundo e como decide agir nele.
Feminismo popular em Pernambuco e a construção coletiva das lutas
Primeiro dia: memória, conflito e construção coletiva
Programação
No fio da memória: relação feminismo e campo de esquerda
Painel com:
Sophia Branco
Vera Baroni
Andrea Butto
Betania Ávila
Coordenação: Natália Cordeiro
Vai avançar o feminismo popular: a construção de movimentos e ações coletivas em Pernambuco
Coordenação: Analba Brazão
Exibição do vídeo “Encontro de mulheres trabalhadoras rurais de Pernambuco” (1987)
Painel com movimentos da pesquisa-ação:
Auxiliadora Cabral (MMTR-NE)
Adriana do Nascimento (FETAPE)
Daniele Goberto (FMPE)
Jorgiana Araújo (CUT)
Andrea Butto (MMM)
Priscilla Gadelha (RENFA)
Rosa Marques (RMNPE)
Exibição do filme “No fio da memória: a luta feminista pelo fim da violência contra as mulheres” (2025)
Depoimentos e debate em plenária
Exibição do filme “Corpos Políticos” (2018)
Logo na abertura, em meio às discussões sobre o que é o chamado "feminismo popular", foi possível ver o retrato concreto do que o compõe: mulheres de várias regiões de Pernambuco — Agreste, Sertão, Zona da Mata, RMR — e de frentes diferentes de luta.
Trabalhadoras rurais, sindicalistas, mulheres negras, pesquisadoras, militantes da luta antiproibicionista, empregadas domésticas, entre tantas outras, como nós, do movimento de arquibancada torcedora do futebol. Das mais variadas idades, com as suas diferentes realidades e histórias, ligadas por algo em comum.
Uma diversidade de mulheres que acolhe variadas verdades — trajetórias distintas, acúmulos diferentes e, em alguns momentos, posições que não coincidiam, todas dividindo o mesmo espaço e buscando confluências para a luta coletiva.

Na voz
Vera Baroni, uma das referências do feminismo em Pernambuco, fundadora da Rede de Mulheres de Terreiro e militante histórica na articulação entre feminismo negro, religiosidade e luta política no estado, trouxe uma chave que atravessou o dia: a ideia de “marcas para dentro” e “marcas para fora”.
Antes, fiquem sabendo: Vera é torcedora do Santa Cruz Futebol Clube.
As marcas para dentro dizem respeito ao aprofundamento. Estar nos espaços de formação, disputar produção de conhecimento, não abrir mão de elaborar pensamento. Já as marcas para fora apontam para a atuação em rede — com mulheres dos bairros, trabalhadoras, aquelas "desconsideras", e que ficam à margem das políticas públicas. Pensar e agir, dentro e fora.
Ela também situou o feminismo como incidência concreta: políticas públicas, disputa de narrativa, defesa dos corpos — também considerando pessoas LGBTQIAPN+ — e presença nas ruas como estratégia de atuação.
Andrea Butto é pesquisadora e gestora pública com atuação no campo das políticas para mulheres, reconhecida pela produção sobre autonomia econômica, feminismo e desenvolvimento, com trajetória vinculada a políticas nacionais para mulheres no Brasil.
Ela trouxe uma discussão - acompanhada de reflexão e convite à reestruturação - importante para quem atua em movimentos: a não hierarquização de formas de organização.
A exemplo dos grupos autônomos e mistos — todos têm papel na luta. Essa leitura permite situar experiências que muitas vezes são exercidas dentro de outros contextos de lutar, a exemplo dos movimentos sindicas, das lutas urbanas, das lutas ruais, das pessoas trabalhadoras.
Para o Movimento Coralinas, isso tem um efeito direto. Mesmo sendo o único grupo de mulheres de arquibancada que se afirma explicitamente feminista, não estamos sozinhas na produção de debate. Experiências como o do Elas e o Sport, Timbuninas, Timbuzeiras e núcleos femininos de torcidas organizadas, que não levantam a bandeira feminista ou política de forma explicitamente crítica, também tensionam gênero e sexualidade nesses espaços.
Outro ponto importante foi a importância de estar recorrentemente promovendo o deslocamento de escala: o que se constrói em Pernambuco não é local no sentido de isolado. Faz parte de uma trama maior — Brasil, América Latina, Sul global. Isso exige situar a prática o tempo todo, posicionando como um processo histórico do mundo.

Segundo dia: memória como método e disputa de futuro
Programação
Exibição do filme “8M Recife – algumas palavras de desordem” (2018)
Exibição de vídeo de ato no CISAM (2020)
Ações coletivas e controvérsias do feminismo popular em Pernambuco
Coordenação: Natália Cordeiro
Fala expositiva: Carmen Silva
Painel de debatedoras:
Mariana Azevedo
Maria Daniela
Verônica Ferreira
Luiza Carolina
Debate em plenária
Memória e futuro: desafios do presente
Coordenação: Analba Brazão
Painel com:
Maria Cardoso
Natália Cordeiro
Debate em plenária
Oficinão
Pensando sobre os desafios do presente para construir o futuro iluminadas pelas memórias coletivas do feminismo popular

Se o primeiro dia organizou o terreno, o segundo foi mais direto: como fazer memória de forma que ela continue viva e nos ajudando a construir, no presente, futuros possíveis?
A exposição conduzida por Carmen Silva trouxe justamente as tensões, para muito além das conquistas. Nathália Cordeiro - educadora do SOS Corpo, militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e doutora em Ciência Política pela UFPE - nos fez refletir como as controvérsias devem aparecer como parte do processo político, não como um simples ruído a ser apagado.
Maria Daniela é pesquisadora vinculada a processos de memória do feminismo em Pernambuco, com atuação na organização e leitura de acervos fotográficos de movimentos como o Fórum de Mulheres, contribuindo para a preservação e circulação de imagens como registro político das lutas feministas.
Juntas, nos convidaram a refletir sobre inúmeras formas de trabalhar a memória como ferramenta de luta, como a importância da pluralidade de vozes, porque memória que não incorpora diversidade vira versão única, o que, na política, costuma significar apagamento.
Também na forma de perpetuar essas memórias. É preciso pensar como. Imagem, vídeo, texto, estética. A memória também disputa linguagem.
Outro ponto recorrente foi a necessidade de permanência. Guardar, organizar, disponibilizar, não apenas como foram de revisitar o passado, mas também como ferramenta de formação e estratégia.
Por fim, Nathália nos convidou ao exercício de analisar a conjuntura atual, entender como estamos situadas no que nos cerca e à refletir sobre como devemos lutar hoje para construir a luta feminista também para o futuro, tendo a esperança como base.

Na voz - Movimento Coralinas
Muitas são as lutas que nos cercam e nos mobilizam. Quando olhamos para o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Movimento Coralinas ao longo de seus 10 anos de atuação, a gente percebe o grupo passando pelo:
Avanço da lógica mercadológica do esporte, que tenta deslocar o futebol de uma vivência esportiva popular para um espetáculo, com uma prática de consumo individual, arenização, o sucateamento do Clube para justificar a SAF etc.
Os discursos misóginos ganhando respaldo em/e "ídolos", com nomes como Daniel, Robinho, goleiro Bruno, entre outros, envolvidos e condenados nas mais variadas violências de gênero, mobilizando pessoas em um movimento de pacificação e normalização dessas violências.
O neoliberalismo avançando, com o advento das BETs cooptando a cultura torcedora, se entranhando no futebol dentro - interferindo em resultados - de campo, mas também fora, atrelando fortemente suas identidades às das torcidas, camisas etc, enquanto adoece, castiga e humilha homens e mulheres que têm seus escassos recursos mobilizados para as apostas.
Perdemos nosso estádio e títulos, o que nos afasta do que nos afeta enquanto corpo torcedor, a história do nosso Clube, o concreto do mundão do Arruda, o que conhecemos como casa; assim como a dispersão da torcida frente às frustrações.
E o que fizemos com isso?
Buscamos as frestas e enraizamos nossa luta nela, por baixo do concreto. Criamos o Expresso Coralinas, levando 50 mulheres do Arruda para a Arena, o que nos trouxe quase uma centena de novas componentes.
Componentes diversas, entre elas mulheres mais novas, mais velhas, mulheres trans, lésbicas, que nós damos sustentação para viverem livres a festa torcedora.
A máquina operando contra nós e a gente modificando ela - como quando quebramos com a lógica de consumo individualizado e levamos cooler, petiscos, e promovemos uma festa coletiva no estacionamento da Arena.
E aproveitamos todas essas oportunidades para falar de gênero, de raça, de classe, de sexualidade, de luta.
E é isto que o Movimento Coralinas leva desses dias de formação:
ACHAR AS FRESTAS, ENRAIZAR-SE NELAS, DIVERTI-SE NESTE CHÃO, CONSTRUIR ESSAS NOVAS BASES (POR DENTRO), BANCAR O AFETO, FAZER CABER, CELEBRAR.
Combatemos e vencemos - em alguns aspectos - a Arena, o consumo individual, o espetáculo, as violência, o neoliberalismo, a distância, a tentativa de tirar nossa identidade, a misoginia, o ódio ao feminino e ao feminizado. De quebra, ainda estávamos lá, vendo o SCFC subindo para a série C. É tempo de esperança. É tempo de vitória.




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